Resumo
As auxinas são hormônios vegetais produzidos nas pontas dos caules e nas folhas jovens, que descem pela planta e comandam o enraizamento, a dominância apical e a curvatura em direção à luz. Em estacas, a auxina sintética mais usada é o AIB. A dose certa varia por espécie, e o excesso inibe a raiz. No alecrim, 2.500 mg por litro elevaram o enraizamento de 53% para 98%.
Auxinas são os hormônios que fazem a estaca criar raiz. Toda vez que um galho cortado solta raízes no copo de água ou no substrato, é a auxina da própria planta, ou a do enraizador, que deu a ordem. O nome vem do grego e quer dizer crescer.
Quem faz muda em casa usa auxina o tempo todo sem saber. Entender de onde ela vem, o que ela faz e por que a dose certa importa mais que a quantidade ajuda a separar o que funciona do que é crença.
O que são auxinas
As auxinas formam um dos seis grupos principais de hormônios que regulam o desenvolvimento das plantas, ao lado das giberelinas, das citocininas, do etileno, do ácido abscísico e dos brassinosteroides. A principal auxina natural é o ácido indolacético, abreviado como AIA.
Hormônio vegetal não funciona como adubo. Ele não alimenta a planta, dá instruções. Uma quantidade minúscula, no lugar certo, muda o destino de um grupo de células: em vez de continuar como casca, elas passam a formar uma raiz.
Onde a planta produz auxina e como ela viaja
Quase todo tecido produz um pouco de auxina, mas as fábricas principais ficam em cima: as pontas dos caules e as folhas jovens. De lá o hormônio desce em direção à raiz. Esse caminho de mão única, do ápice para a base, é chamado de transporte polar, gasta energia e não depende da gravidade.
Esse detalhe explica muita coisa na bancada. A auxina se acumula na parte de baixo do galho, e por isso a raiz nasce na base da estaca, não na ponta. Explica também o que acontece no anelamento do galho na alporquia: quando a casca é retirada em anel, o que descia fica represado logo acima do corte, e é ali que as raízes aparecem.
O que as auxinas fazem na planta
| Efeito da auxina | O que você vê no dia a dia |
|---|---|
| Formação de raízes adventícias e laterais | A estaca cria raiz na base |
| Dominância apical | A ponta do galho segura a brotação das gemas de baixo |
| Fototropismo | A muda na janela se curva em direção à luz |
| Gravitropismo | A raiz desce e o caule sobe, mesmo com a semente deitada |
| Atraso na queda das folhas | A folha sadia fica presa ao galho |
A dominância apical é a razão de a poda de ponta deixar a planta mais cheia. Enquanto a ponta está lá, a auxina que ela produz mantém as gemas laterais paradas. Cortada a ponta, as gemas de baixo acordam. As citocininas, outro grupo de hormônios, trabalham no sentido contrário e estimulam essa brotação.
A curvatura em direção à luz tem a mesma origem. A auxina se redistribui de um lado para o outro do caule, um lado cresce mais que o outro, e o caule entorta.

Por que a estaca enraíza
Na estaca, a auxina ativa células do câmbio, a camada viva logo abaixo da casca, e dessas células saem as raízes novas. As folhas que ficam no galho ajudam, porque funcionam como fonte de auxina e de açúcares. É por isso que o passo a passo de estaquia para iniciantes manda deixar algumas folhas no topo, em vez de pelar o galho inteiro.
A Embrapa registra outro recurso simples. Um ou dois cortes rasos de 2 a 3 centímetros na base da estaca, tirando só um pouco de casca, aumentam a absorção de água e de hormônio e podem favorecer o enraizamento. Os outros fatores que pesam, como umidade, luz e temperatura, estão no guia sobre o que faz um galho criar raiz.
AIA, AIB e ANA: as auxinas do enraizador
O AIA é a auxina que a planta fabrica. Os produtos vendidos para enraizar usam auxinas sintéticas, que fazem o mesmo papel e duram mais.
- AIB, ácido indolbutírico. É o mais usado em estaquia, por ser estável à luz e resistir à degradação.
- ANA, ácido naftalenoacético. Vem em seguida no uso comercial.
- AIA, ácido indolacético. É a auxina natural, a que a própria planta fabrica.
Para entender os formatos de produto, do pó ao gel, e quando compensa comprar, vale ler o comparativo de enraizadores comerciais e quando usar cada um.

A dose: mais hormônio não é mais raiz
Aqui está o ponto que mais se erra. A auxina estimula a raiz só até um teto, que muda de espécie para espécie. Acima dele, o efeito se inverte e o hormônio passa a inibir. A explicação mais aceita é que auxina demais faz a planta produzir etileno, que trava o crescimento.
O documento Produção de mudas: principais técnicas utilizadas na propagação de fruteiras, da Embrapa Cerrados, diz com todas as letras que não existe dose única. Como ponto de partida para testes com AIB em solução, sugere de 1.000 a 2.000 ppm, com a base da estaca mergulhada por 5 a 10 segundos. E avisa: concentração mais alta ou tempo maior pode intoxicar, prejudicar o enraizamento e muitas vezes matar as estacas.
Um ensaio brasileiro mostra a curva na prática. No estudo Ácido indolbutírico na propagação vegetativa de alecrim, publicado na revista Horticultura Brasileira, seis doses foram testadas. No verão, as estacas sem AIB enraizaram 53%. Com 2.500 mg por litro, 98%. Com 3.000, o enraizamento e a altura das mudas já caíram.
Esses números são de laboratório, com AIB puro dissolvido em álcool e água, e não se traduzem direto para o pó vendido em loja. No produto comercial, vale a dose do rótulo. O que a pesquisa ensina é a lógica: uma camada fina na base, por pouco tempo. Quem quiser repetir o teste em casa tem o roteiro em muda de alecrim por galho.
Mito ou verdade sobre auxina e enraizador caseiro
Um trabalho publicado na Revista Brasileira de Plantas Medicinais testou o enraizador caseiro mais famoso do país, o extrato de tiririca, em estacas de pingo-de-ouro. O resultado ajuda a responder várias crenças de uma vez.
- Tiririca tem auxina. Verdade em parte. Um estudo de 1969 confirmou AIA nos tubérculos da planta. O artigo, porém, não mediu quanto havia nos extratos usados.
- Extrato de tiririca faz a estaca enraizar mais. Não foi o que se viu. O extrato não alterou o enraizamento em nenhuma das seis épocas avaliadas.
- Enraizador sempre ajuda. Mito. Nessa espécie, que já enraizava bem sozinha, nem o AIB nem o ANA superaram as estacas sem tratamento.
- A época pesa mais que o produto. Verdade nesse ensaio. As estacas colhidas em outubro e dezembro enraizaram cerca de 87%. As de junho, 46%.
- Quanto mais forte o preparo, melhor. Mito. Toda auxina tem teto, e passar dele inibe.
Sobre água de salgueiro e lentilha germinada, a pesquisa publicada também não dá apoio. Num ensaio com estacas de oliveira, os extratos de salgueiro ficaram com os índices de enraizamento mais baixos entre dez tratamentos naturais. Num trabalho de conclusão de curso com videira, a estaca sem extrato de lentilha empatou com o melhor tratamento. São poucos estudos, em espécies diferentes das que se enraíza em casa, então o mais honesto é dizer que o efeito não está demonstrado. As receitas e o papel de cada ingrediente estão no artigo sobre enraizador caseiro e seus mitos.
Auxina fora do vaso: da poda ao herbicida
A mesma substância que faz raiz é usada na agricultura para outros fins. Auxinas sintéticas induzem o florescimento do abacaxi e fazem o raleio de frutos em pomares. Em dose alta, viram herbicida: produtos como o 2,4-D são auxinas que matam plantas de folha larga por excesso de crescimento.
É a melhor ilustração de como a dose muda tudo. A molécula que ajuda uma estaca de alecrim a enraizar, em outra concentração e em outra planta, é veneno.
O que levar para a bancada
- Deixe folhas na estaca. Elas são a fonte de auxina do galho.
- Plante com a base para baixo. A auxina desce, e é na base que a raiz sai.
- Use enraizador onde ele faz diferença. Em espécie que pega fácil, o ganho pode ser nenhum.
- Respeite a dose. Pouco produto, por pouco tempo.
- Escolha a época. Planta em crescimento ativo responde melhor do que no frio.
Com isso em mente, o enraizador deixa de ser um pó milagroso e vira o que é: um reforço para um processo que a planta já sabe fazer.