A alporquia é a técnica de fazer um galho criar raiz ainda preso à planta mãe. Você faz um ferimento na casca, envolve com um material úmido, cobre com plástico e espera: em algumas semanas surgem raízes no ponto marcado, e aí o galho é cortado já como uma muda pronta. Este guia de alporquia passo a passo mostra quando usar a técnica, o que você precisa, como fazer e como separar a muda sem perdê-la.
O que é alporquia e por que ela funciona
Na estaquia comum, o galho é cortado e precisa sobreviver sozinho até criar raiz, o que nem sempre acontece com plantas lenhosas ou de enraizamento difícil. Na alporquia, o galho continua recebendo água e nutrientes da planta mãe durante todo o processo. Ele só é separado depois de ter raízes próprias, e por isso o índice de sucesso é muito maior.
O truque está no ferimento. Ao retirar um anel de casca, você interrompe a descida da seiva que leva açúcares e hormônios das folhas para as raízes. Esses compostos se acumulam logo acima do corte, e a planta reage formando raízes exatamente ali, no meio do material úmido. Por ser uma forma de propagação vegetativa, a muda sai idêntica à planta mãe.
Quando vale a pena fazer alporquia
A alporquia brilha nas plantas que não pegam por estaca ou pegam mal, e em situações em que você quer uma muda já grande. Alguns casos típicos:
- Árvores frutíferas como lichia, jabuticaba, pitanga, acerola, goiaba, limão e mexerica, que dariam fruto demorado ou diferente se plantadas por semente.
- Plantas ornamentais lenhosas como ficus, camélia, azaleia, hibisco, buxinho e bougainville.
- Galhos grossos que dariam uma muda de bom tamanho, bem mais adiantada que uma estaca.
- Plantas que cresceram demais, quando você quer rebaixar a copa e aproveitar a ponta como muda nova.
Para plantas que enraízam fácil, como hortelã, jiboia e suculentas, a alporquia é desnecessária. Nesses casos a estaquia resolve com muito menos trabalho.
O que você precisa
- Um canivete ou estilete afiado e limpo, passado no álcool.
- Musgo sphagnum, fibra de coco ou substrato bem úmido.
- Plástico transparente ou escuro, de uns 20 por 20 centímetros.
- Barbante, fitilho ou arame revestido para amarrar.
- Enraizador em pó ou gel, opcional, mas útil em espécies difíceis.
- Papel alumínio, opcional, para proteger do sol.

Alporquia passo a passo
- Escolha o galho: saudável, do crescimento do último ano, com espessura entre um lápis e um dedo polegar. Marque um ponto uns 20 a 40 centímetros abaixo da ponta.
- Faça o anelamento: com o canivete, faça dois cortes circulares em volta do galho, distantes de 2 a 3 centímetros um do outro, atravessando só a casca.
- Retire a casca entre os dois cortes, fazendo um corte vertical e puxando o anel. Raspe de leve a superfície exposta para remover a camada verde, sem ferir a madeira.
- Aplique o enraizador, se for usar, na borda superior do corte, onde as raízes vão surgir.
- Envolva com o material úmido: uma bola de musgo ou fibra de coco, bem molhada e espremida para não pingar, cobrindo todo o anel.
- Cubra com plástico, formando um embrulho parecido com uma bala, e amarre firme em cima e embaixo.
- Proteja do sol forte com papel alumínio, se o galho fica muito exposto, para o embrulho não esquentar demais.
- Confira a umidade a cada uma ou duas semanas. Se o material secar, abra a parte de cima e injete um pouco de água com uma seringa.
A época ideal é a primavera e o início do verão, quando a planta está em crescimento ativo. Se você organiza as tarefas do jardim pelas fases da lua, o calendário lunar de plantio mostra a fase que a tradição indica para esse tipo de trabalho.
Quanto tempo leva e como saber que enraizou
| Tipo de planta | Tempo médio até enraizar |
|---|---|
| Ornamentais de crescimento rápido (ficus, hibisco) | 4 a 8 semanas |
| Frutíferas tropicais (acerola, goiaba, pitanga) | 6 a 10 semanas |
| Citros (limão, mexerica, laranja) | 8 a 12 semanas |
| Frutíferas de enraizamento difícil (lichia, jabuticaba) | 10 a 16 semanas |
Com plástico transparente, o sinal é visível: raízes brancas ou amareladas aparecendo através do embrulho. Com plástico escuro, você pode abrir com cuidado a parte de cima e olhar. Espere até ver várias raízes bem formadas, não apenas uma ou duas. Separar cedo demais é a principal causa de perda.
Em espécies difíceis a espera é longa e o resultado, incerto. Num teste da Embrapa Amazônia Oriental com alporquia de camu-camu, os alporques ficaram 120 dias presos à planta, e o melhor tratamento enraizou 48% dos galhos.

Como separar e plantar o alporque
- Corte o galho logo abaixo do embrulho, com uma tesoura de poda afiada.
- Retire o plástico com cuidado, sem desmanchar a bola de musgo, que pode ir junto para o vaso.
- Pode parte das folhas, se o galho for grande, para equilibrar a pouca raiz com a copa.
- Plante num vaso com substrato leve e drenante, sem enterrar além da altura das raízes.
- Regue bem e mantenha a muda em meia sombra e protegida do vento por duas a três semanas, até retomar o crescimento.
Erros comuns na alporquia
- Não remover toda a casca do anel: se sobrar uma faixa, a casca se regenera e a raiz não sai.
- Deixar o musgo secar, o que interrompe o enraizamento.
- Material encharcado, que apodrece a região do corte.
- Amarrar frouxo, deixando entrar água da chuva ou ar seco.
- Separar antes da hora, com raízes poucas e finas.
A alporquia é uma das técnicas que vale combinar com as outras. Se a planta aceita enxerto, a enxertia pode ser o caminho para fruteiras, e o guia de mudas de árvores frutíferas compara os métodos. Na dúvida sobre qual escolher para a sua espécie, o seletor de mudas aponta o mais indicado.
Uma muda grande, sem arriscar o galho
A alporquia pede mais paciência do que a estaca, mas entrega mudas maiores e com índice de sucesso alto, justamente nas plantas que mais resistem à multiplicação. Escolha um galho saudável na primavera, capriche no anelamento do galho e na umidade, e espere as raízes aparecerem antes de cortar.