Borbulhia é o enxerto feito com uma gema só. Em vez de um galho inteiro, você tira da planta que quer copiar uma pequena placa de casca com uma única gema e encaixa essa placa no caule de outra planta, o porta-enxerto. Se a união pega, a gema brota e vira a copa da muda.
É o método que os viveiros usam para laranja, limão, pêssego e ameixa, porque gasta pouco material e rende muitas mudas de um mesmo galho. Para quem já entendeu o que é enxertia e para que ela serve, este é o passo seguinte: fazer o corte em T do jeito certo.
O que é borbulhia e onde ela é usada
A definição técnica está no documento Produção de mudas: principais técnicas utilizadas na propagação de fruteiras, da Embrapa Cerrados: é a enxertia de gema, em que uma pequena porção de casca com uma única gema é inserida sobre o porta-enxerto. A gema enxertada recebe o nome de borbulha.
Nos citros, a muda comercial é quase sempre feita assim, com a variedade copa enxertada sobre um porta-enxerto nascido de semente. Esse cavalo de semente sai uniforme por causa de um fenômeno explicado no artigo sobre poliembrionia nos citros e na manga. No pessegueiro e na ameixeira do Sul do Brasil, a borbulhia também é o método mais usado.
Os três tipos de borbulhia
O que muda de um tipo para outro é o desenho do corte no porta-enxerto.
| Tipo | Como é o corte | Grossura do porta-enxerto | Onde é mais usado |
|---|---|---|---|
| T normal | Corte vertical de 2 a 3 cm e um horizontal na ponta de cima | A de um lápis, de 6 a 8 mm | Fruteiras em geral |
| T invertido | O mesmo desenho, de cabeça para baixo | A de um lápis | Citros, pessegueiro, ameixeira e roseiras |
| Placa ou janela aberta | Retângulo de casca de 3 a 4 cm de altura por 1 a 1,5 cm de largura | De 1,5 a 2,5 cm | Espécies de casca grossa, como goiabeira e caquizeiro |
O T invertido existe por um motivo prático. Com o corte horizontal embaixo, a água da chuva escorre para fora em vez de entrar na ferida. Por isso ele é o preferido em lugares chuvosos e em plantas que soltam muita seiva. A placa é mais lenta e mais difícil, e fica para as espécies em que a casca grossa não permite o T.
Quando fazer: a casca precisa estar soltando
A condição que decide tudo é o estado do porta-enxerto. A borbulhia só funciona quando a planta está em crescimento ativo e a casca se separa da madeira com facilidade. Os técnicos dizem que a muda está soltando a casca. Se a casca gruda, a borbulha não entra e o enxerto falha.
A época varia com a região. No Sul, a enxertia de gema ativa é feita na primavera e no verão, e a de gema dormente no outono, com brotação só depois do inverno. Em Rondônia, a Embrapa aponta o fim do período chuvoso como a fase mais propícia. Para encaixar isso no restante das tarefas do ano, o calendário de plantio mês a mês ajuda a planejar.
O que separar antes de começar
- Porta-enxerto no ponto. Em citros, a muda está apta quando o caule tem a espessura de um lápis a uns 20 cm do chão, o que acontece entre 6 e 12 meses de idade.
- Ramo da planta matriz. Um galho sadio da variedade que você quer copiar, com gemas bem formadas.
- Canivete afiado e limpo. O corte precisa ser liso. Lâmina cega esmaga a casca.
- Fita plástica de enxertia. É ela que segura a borbulha e impede que o corte seque.
A limpeza da lâmina entre uma planta e outra evita levar doença de um caule para o outro. O guia de ferramentas de corte e como desinfetar a lâmina mostra o procedimento.

Borbulhia em T, passo a passo
- Escolha o ponto. Um trecho liso do caule, a cerca de 20 cm do solo.
- Faça o T. Um corte vertical de 2 a 3 cm e um horizontal na ponta de cima, atravessando só a casca. No T invertido, o corte horizontal fica embaixo.
- Retire a borbulha. Corte do ramo da matriz uma plaquinha de uns 3 cm com a gema no centro. Em citros ela vai com uma lasca fina de madeira por baixo.
- Encaixe. Levante as abas do T com a ponta do canivete e deslize a borbulha para dentro, com a gema apontando para cima.
- Amarre. A fita não fica frouxa nem apertada demais. No T normal ela é enrolada de cima para baixo, para não empurrar a gema para fora. No invertido, de baixo para cima.
- Deixe a gema de fora. As publicações brasileiras orientam amarrar em volta e manter a gema descoberta, livre para brotar.
- Verifique em cerca de 20 dias. Tire a fita. Se a gema continua verde, pegou.
O prazo da fita é o ponto em que mais se erra. As recomendações técnicas Enxertia em fruteiras, da Embrapa Rondônia, falam em por volta de 20 dias. A extensão da Universidade da Flórida dá de 14 a 21 dias e avisa para nunca passar de 30.
Cortar ou dobrar o porta-enxerto
Depois que a borbulha pega, a gema precisa de um empurrão para brotar. Enquanto a copa do porta-enxerto estiver inteira, a planta manda a força para os próprios galhos. Há dois jeitos de mudar isso.
- Cortar. O caule do porta-enxerto é decepado poucos centímetros acima do enxerto.
- Dobrar. O caule é quebrado parcialmente ou dobrado uns 10 cm acima do enxerto, e só é cortado depois.
Um experimento com mudas de citros, publicado pela Embrapa na circular técnica Minimudas: produção de mudas de citros em recipientes pequenos, comparou os dois. Com o corte, a gema brotou mais depressa. Com a dobra, a muda cresceu mais: ficou em média três vezes mais alta aos 70 dias e 1,7 vez mais alta aos 160. A taxa final de brotação foi a mesma nos dois casos, 98,9%.
A explicação dos autores é que as folhas do porta-enxerto dobrado continuam alimentando o enxerto. Para quem faz poucas mudas em casa e não tem pressa, dobrar primeiro e cortar depois é uma boa escolha.
Depois que a gema brotou
O cuidado agora é não deixar o porta-enxerto competir. Os brotos que nascem do cavalo devem ser arrancados assim que aparecem, porque atrasam o crescimento do enxerto. Quando o broto da gema enxertada chega a uns 15 a 20 cm, faz-se o corte definitivo do porta-enxerto logo acima dele.
Daí em diante a muda é conduzida em haste única, com um tutor para crescer reta. Em citros, a muda fica pronta para o plantio depois de cinco a seis meses de cuidados. O caminho completo, do cavalo ao pomar, está no guia de mudas de árvores frutíferas e seus quatro métodos.

Erros que fazem a borbulha secar
- Enxertar com a casca presa. Se a casca não solta, o T não abre. Nesse caso existe a borbulhia de gema com lenho, que leva junto um fragmento de madeira.
- Porta-enxerto fora da grossura. O T pede caule da espessura de um lápis. Caule mais grosso, de casca grossa, pede a placa.
- Fita mal ajustada. Ela não pode ficar frouxa nem apertada demais, e precisa impedir que o corte seque.
- Fita por tempo demais. O limite dado pelas fontes é de 30 dias.
- Brotos do cavalo crescendo soltos. Eles atrasam o crescimento da gema enxertada.
Borbulhia ou garfagem: qual escolher
As duas copiam a planta matriz. A diferença está no material. A borbulhia usa uma gema por muda, então um único galho rende várias. A garfagem usa um pedaço de ramo com várias gemas e gasta mais material.
No abacateiro, por exemplo, o método de casa é a garfagem, descrita no passo a passo da enxertia de abacate em fenda cheia. Em citros e pêssego, a borbulhia em T continua sendo o padrão. Vale treinar o corte em galhos de poda antes de arriscar uma muda de verdade.