Apomixia: o que é, tipos e exemplos de sementes clones

Flor de dente-de-leão com sementes se soltando ao vento, exemplo de planta apomítica
Neste artigo

Resumo

Apomixia é a formação de sementes sem fecundação, em que o embrião nasce de células da planta mãe e vira um clone dela. Os três tipos principais são a embrionia adventícia, dos citros e de mangas como Espada e Ubá, a aposporia, das braquiárias, e a diplosporia, do dente-de-leão. Muitas apomíticas ainda precisam de pólen para formar o endosperma.

Semente costuma ser sinônimo de mistura: o pólen de uma planta fecunda o óvulo de outra e nasce um indivíduo novo, diferente dos pais. A apomixia quebra essa regra. É a formação de sementes sem fecundação, em que o embrião nasce de células da própria planta mãe. O resultado parece contraditório: uma semente que gera um clone.

O fenômeno é mais comum do que parece. Está no limão que brota fiel à árvore de onde saiu, em muitas pastagens que cobrem o Brasil e em plantas que você já viu no jardim sem imaginar o que acontecia dentro da flor. Entender a apomixia ajuda a explicar por que algumas sementes “repetem” a planta mãe e outras não.

O que é apomixia

A palavra vem do grego e quer dizer, ao pé da letra, “longe da mistura”. Na apomixia, a planta forma a semente sem juntar o material genético de dois pais. O embrião surge de uma célula da mãe que não passou pela meiose, a divisão que normalmente reduz os cromossomos pela metade antes da fecundação. Como não há redução nem mistura, o embrião carrega exatamente os mesmos genes da planta que produziu a semente.

Por fora, nada muda. A planta floresce, forma fruto e solta sementes como qualquer outra. A diferença está no que acontece dentro do óvulo. Por isso a apomixia fica numa posição curiosa: usa a estrutura da reprodução sexuada das plantas, a semente, mas entrega o resultado da reprodução assexuada, a cópia fiel.

Como a apomixia acontece: os três caminhos

Os botânicos dividem a apomixia em tipos, conforme a origem do embrião. Os três mais estudados são estes:

  • Embrionia adventícia (ou nucelar): o embrião nasce de células do nucelo, o tecido da mãe que envolve o saco embrionário. Muitas vezes convive com um embrião sexual na mesma semente, e daí surgem sementes com várias plantinhas. É o caso clássico dos citros e de várias mangueiras.
  • Aposporia: uma célula comum do nucelo, sem passar por meiose, forma um saco embrionário completo, e dele sai o embrião. É o mecanismo de muitas gramíneas forrageiras tropicais, como as braquiárias.
  • Diplosporia: a própria célula que deveria sofrer meiose pula essa etapa e forma o saco embrionário com o número completo de cromossomos. O dente-de-leão é o exemplo mais citado.
TipoDe onde nasce o embriãoPrecisa de pólen?Exemplos
Embrionia adventíciaCélulas do nucelo, ao lado do embrião sexualEm geral sim, para o fruto e o embrião sexual se formaremLimão, tangerina, manga poliembriônica
AposporiaSaco embrionário formado por célula comum do nuceloMuitas vezes sim, para formar o endospermaBraquiárias, capim-colonião
DiplosporiaCélula-mãe que pula a meioseEm várias espécies, nãoDente-de-leão

Um detalhe chama atenção: muitas plantas apomíticas ainda dependem da polinização. É a chamada pseudogamia. O pólen não participa da formação do embrião, mas é necessário para formar o endosperma, a reserva de alimento da semente. Sem polinização, a semente não se completa, mesmo que o embrião seja um clone.

Espigas de braquiária em pastagem tropical ao entardecer, capim que se reproduz por apomixia
As braquiárias das pastagens brasileiras se reproduzem por apomixia.

Apomixia obrigatória e facultativa

Algumas espécies produzem praticamente só sementes apomíticas. Outras misturam os dois caminhos: parte das sementes sai clonal e parte sai do cruzamento normal. A primeira situação é chamada de apomixia obrigatória, e a segunda, de apomixia facultativa. Num estudo da Embrapa com acessos de braquiária, cerca de 42% dos ovários analisados tinham ao mesmo tempo sacos embrionários do tipo apomítico e do tipo sexual, um retrato da apomixia facultativa.

Na prática, a apomixia facultativa é a mais comum. Por isso nem toda semente de uma planta apomítica garante uma cópia perfeita. Num lote de mudas de limão, por exemplo, a maioria sai igual à planta mãe, mas uma ou outra pode ser fruto de cruzamento e crescer diferente das irmãs.

Exemplos de plantas apomíticas

A apomixia aparece em centenas de espécies, espalhadas por famílias muito diferentes. Algumas das mais conhecidas no Brasil:

  • Citros: limão-cravo, limão-rugoso, tangerinas e laranjas formam embriões nucelares com frequência. É por isso que muita gente consegue uma muda parecida com a árvore original plantando a semente. É também a origem da poliembrionia dos citros.
  • Mangueira: variedades como Espada, Rosa e Ubá têm sementes com vários embriões, e a maioria deles é clone da mãe. Já Tommy Atkins, Haden e Palmer têm um embrião só, sexual.
  • Braquiárias e capim-colonião: as principais forrageiras das pastagens brasileiras se reproduzem por aposporia. A semente comprada pelo pecuarista reproduz o capim da cultivar.
  • Dente-de-leão: a flor amarela que vira bola branca no gramado forma sementes clonais, e por isso uma única planta ocupa um terreno inteiro com cópias de si mesma.
  • Mangostão: a fruta asiática produz sementes a partir de tecido da mãe, sem fecundação.

Por que a apomixia interessa tanto à agricultura

Imagine uma planta híbrida excelente, que produz muito mais que os pais. Na reprodução sexual comum, as sementes dessa planta perdem parte do vigor na geração seguinte, porque os genes se recombinam. É por isso que o agricultor precisa comprar semente híbrida nova todo ano, em vez de guardar a da colheita.

Um documento da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia resume esse potencial: a apomixia permite fixar genótipos superiores e produzir híbridos sem o trabalho de emascular flores. O mesmo texto lembra que a maioria das espécies de braquiária é apomítica, e que as pastagens formadas por elas sustentam boa parte do rebanho brasileiro, estimado no documento em cerca de 209 milhões de cabeças.

Com apomixia, o híbrido passaria adiante as mesmas qualidades pela semente, geração após geração. Esse é o motivo de a apomixia ser estudada há décadas em institutos de pesquisa do mundo todo. No Brasil, o melhoramento das braquiárias depende de entender quais plantas são apomíticas e quais são sexuais, porque é cruzando as sexuais com as apomíticas que se criam cultivares novas, que depois se multiplicam fiéis pela semente.

Nos citros e nas mangueiras, a apomixia tem outro uso: produzir porta-enxertos uniformes a partir de semente. As mudas nucelares são parecidas entre si, o que facilita o trabalho do viveiro. Depois recebem a copa da variedade desejada pela enxertia.

Limão cortado com sementes ao lado de vasinhos com mudas de limoeiro
Muitas mudas de limão de semente saem iguais à planta mãe.

Apomixia, estaquia e clonagem: qual a diferença

Os três primeiros caminhos da tabela produzem cópias da planta mãe, mas por rotas bem diferentes:

MétodoParte usadaQuem fazResultado
ApomixiaSementeA própria planta, na florClone dentro de uma semente
EstaquiaPedaço de galho, folha ou raizO cultivadorClone a partir de um pedaço
MicropropagaçãoPedaços minúsculos de tecidoLaboratórioMilhares de clones em frascos
Reprodução sexuadaSemente com fecundaçãoA planta, com pólen e óvuloPlanta nova e diferente

A propagação vegetativa e a micropropagação dependem da mão do homem para acontecer. A apomixia é a planta clonando a si mesma sem ajuda, e ainda embalando a cópia numa semente, que resiste ao transporte e à espera muito melhor que uma estaca.

O que isso muda para quem planta em casa

Se você já plantou semente de limão ou de tangerina e ganhou uma árvore muito parecida com a original, agradeça à apomixia. Mas há um detalhe que surpreende muita gente: mesmo sendo clone, a muda de semente passa por uma fase juvenil longa. Ela cresce com mais espinhos, demora anos para florescer e pode levar de cinco a oito anos para dar o primeiro fruto.

A muda enxertada pula essa fase porque o galho usado já vem de uma planta adulta. Por isso, para quem quer colher logo, o caminho continua sendo a muda enxertada, e para quem quer um porta-enxerto ou gosta de acompanhar a planta desde o começo, a semente apomítica é uma ótima escolha. O passo a passo da semeadura está no guia de como plantar sementes, e as escolhas para árvores de fruto, em como fazer mudas de árvores frutíferas.

Na mangueira, vale olhar a variedade antes de plantar o caroço. Semente de manga Espada ou Ubá tende a repetir a planta mãe. Semente de Tommy Atkins ou Palmer vai gerar uma mangueira nova, com fruto que ninguém sabe como vai ser.

Uma semente que guarda um clone

A apomixia mostra que a natureza não segue regras tão rígidas quanto os livros escolares sugerem. Semente nem sempre é mistura, e clone nem sempre vem de estaca. Para o cultivador, a lição prática é simples: saber se a planta é apomítica diz se vale a pena plantar a semente esperando uma cópia, ou se é melhor partir para a estaca e o enxerto.

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Quem escreve
Luiz Augusto Silva Rodrigues

Luiz Augusto Silva Rodrigues é o fundador e editor do Ramificando, onde reúne e revisa os guias de propagação de plantas do site, com foco em quem vai fazer a primeira muda. Saiba mais em Sobre e na Política Editorial.

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